A minha bisavó paterna de 95 anos está no hospital, devido a uma infecção na vesícula.
Sendo uma pessoa que viveu todos esses anos na mesma aldeia e na mesma casinha de pedra, e que o único bem que possui é uma extensa e dispersa família, é talvez a pessoa mais pura, humilde, simples e humana que conheço. Toda a gente a adora e tem grande estima por ela, eu apesar de só a ver praticamente uma vez por ano, não sou excepção. Logo, esta situação toca-me porque gostava que, apesar da já tão avançada idade, ela vivesse mais uns aninhos... Até porque é bastante independente com a sua bengala e é completamente lúcida.
Hoje fui visitá-la, reconheceu-me logo. Após uns minutos de conversa, dei-lhe um beijo na mão enrugada porque as grandes encravadas da cama não me deixaram alcançar o rosto e dei lugar à visita seguinte.
Não sei se ela vai resistir, eu penso que sim, e portanto esta pode ter sido uma oportunidade de vê-la pela última vez, ainda que o cenário não seja assim tão negro. Fiquei feliz porque sendo esta a última imagem que tenho dela, será certamente uma boa recordação. E conformo-me com isso, racionalmente sei que o curso natural da vida está ser cumprido.
No entanto, não pude deixar de pensar na forma como encararei a morte das minhas avós que ainda estão nos 70 (a passar ligeiramente).
Sei que sofrerei com a morte das duas e terei saudades de ambas. Mas também sei que a dor não será a mesma, simplesmente porque a ligação com cada uma é diferente.
Não sei se estarei correcta em pensar isto, mas não posso esconder que a relação com a minha avó paterna é muito mais distante, menos sólida. Diz-se que há sempre um maior contacto com a família materna, e no meu caso é bem verdade.
A minha avó paterna sempre demonstrou diferença entre mim e o meu irmão e os meus dois primos mais velhos. Qualquer um vê isso. Nunca teve disponibilidade de me ir ver na patinagem, de ir a uma festa de natal da escola, nem sequer à minha última queima das fitas. Nunca foi ver um dos espectáculos da escola de música do meu irmão nem nunca foi vê-lo ao futebol. E acredito mesmo que nem sequer tenha vontade de o fazer. O mesmo já não aconteceu com os meus outros primos, nem mesmo com os dois filhos de um deles. Aceito com naturalidade e jamais cobrarei isso.
Essencialmente porque tenho a minha avó materna para compensar. Que é a avó Rosa que trata todos os 9 netos por igual e nutre por cada um deles o mesmo imenso orgulho.
Portanto, não posso ser hipócrita e dizer que a falta que me farão será a mesma, porque tenho a certeza que não será.